às margens do nilo


Dahab, Sinai, 13 de abril de 2011

Pra quem é fã do Egito Antigo, o Alto Nilo é a Disneylândia. Lá, proliferam templos, tumbas e monumentos extraordinários. Como tudo aquilo pôde ter sido construído há milhares de anos é uma questão que jamais foi completamente respondida e a grandiosidade do legado dessa civilização ainda hoje causa assombro. No ápice do poder dos faraós, ergueram-se esses sofisticados complexos voltados pra adoração de deuses e de si mesmos.

Passamos rapidamente pelo Cairo e pegamos um trem noturno direto pra Asuán, no sul do Egito. Que conforto! 12 horas de viagem, com direito a jantar e café da manhã em uma pequena cabine particular com poltronas que engenhosamente viravam um beliche. Antes de sair, conhecemos um casal que está também em uma longa viagem. Jordana, uma argentina, e Ivo, francês, rodarão por seis meses pela África. Reencontramos com eles em outras duas cidades e, quem sabe, nos veremos novamente na África do Sul.

Esperando o trem na estação do Cairo

Ásuan

Nos venderam Ásuan como um lugar bem relaxante. Até poderia ser, se agente pudesse andar pelas ruas sem ser importunado todo o tempo. Aos poucos, vamos aprendendo a lidar com os insistentes vendedores nos impregnando com suas ofertas por restaurantes ou passeios de falúa, charrete ou táxi. Se às vezes nos tiram a paciência, em outras simplesmente se juntam às buzinas pra compor a trilha sonora dessas cidades. São inofensivos quando não lhe damos muito crédito.

Independente disso, Asuán é um ótimo destino. Sua atração mais famosa é Filae e ela não decepciona. Foi local de adoração da deusa Ísis até o relativamente recente (pros padrões egípcios) século IV. Desde então, as imagens dos deuses pagãos foram profanadas por cristãos, cujos símbolos foram posteriormente apagados por mulçumanos.

Templo de Ísis

Imagens danificadas pelos cristãos
O canto dos passarinhos dá um toque especial às visitas aos templos

Outro ponto conhecido é o Obelisco Inacabado, que teria sido o maior do Egito, se uma falha em sua estrutura não o levasse a ser abandonado quando estava quase pronto. Não chega a ser extraordinário visitá-lo, assim como é dispensável ir ao Cemitério Fatimí. O Museu Núbio, contudo, é bem interessante. Guarda os tesouros recolhidos em uma operação comandada pela Unesco quando a conclusão da Represa Alta alagou todo o Vale da Núbia.

O trabalho da Unesco salvou até mesmo pinturas rupestres

Fazia tempo que a gente andava atrás de um belo pôr do sol. Não demos muita sorte nos desertos que dormimos, mas tiramos o atraso nesses últimos dias. A região é perfeita pra isso. O contraste das montanhas douradas com o verde das águas do Nilo é lindo. E como o céu está quase sempre limpo, havia espetáculo todos os dias.

Saboreando uma Stella às margens do Nilo, em Asuán
O tão esperado por do sol de Asuán

Abu Simbel: e como a História foi salva pela engenharia

Abu Simbel é um passeio obrigatório pra quem está em Asuán. Fica na margem do lago Nasser, bem próximo à fronteira com o Sudão. O lago foi formado com a conclusão da Represa Alta e teria alagado pra sempre o Grande Templo de Ramsés II e o Templo de Hator. Foram salvos em outra incrível operação organizada pela Unesco, em que foram desmontados, transportados e remontados literalmente pedra por pedra em um local 60 metros mais acima. É preciso acordar bem cedo pra ir. Cedo mesmo, nossa van foi nos buscar no hotel às 3hs da manhã! São quatro horas pra ir e outras quatro pra voltar. É cansativo, mas inesquecível! Na volta, aproveitamos pra curtir a duvidosa piscina do nosso hotel e aproveitar o agradável terraço.

Grande Templo de Ramsés II

Templo de Hator

A essa altura, já podemos dizer que não é caro viajar pelo Egito. Especialmente, alimentação e hospedagem saem bem em conta. Comer no Cairo, então, pode sair quase de graça. Um bom almoço pra dois – com bebidas incluídas – custava o equivalente a R$ 7 (isso mesmo, R$ 3,50 pra cada um!). Isso nos restaurantes frequentados pelos locais, longe dos preços pra turistas. O que pesa mais são as atrações, que têm valores desproporcionais aos custos do País. Gasta-se mais com entradas do que com qualquer outra coisa. De qualquer forma, vale à pena pagar por elas na grande maioria dos casos.

Cruzeiro: dias de rei

Mochileiro não é de ferro e também gosta de conforto. Mais do que conforto, porque não um pouco de luxo e riqueza pra descansar das longas horas apertados em ônibus velhos e carregando mochilas de lá pra cá?  A gente merecia. E conseguiu ter isso sem estourar o orçamento, o que era importante. Os cruzeiros pelo Nilo são um dos pontos altos do turismo no Egito e o trecho mais concorrido fica entre Luxor e Asuán. Normalmente, os passageiros embarcam em Luxor e vão subindo o rio, parando ao longo do caminho pra visitar os lugares históricos e depois retornam pro ponto de partida. Nosso segredo foi embarcar no meio do caminho. Com várias cabines disponíveis e já na metade final da viagem, os preços podem despencar. Não faltam opções ancoradas em Asuán e certamente será possível encontrar um navio pra chamar de seu.

Dia de relax...

Quis o destino que o banheiro da nossa cabine apresentasse um vazamento logo que entramos. A saída foi nos realocar imediatamente em um suíte de dois quartos, espaçosa e ainda mais confortável. Assim, por um valor bem reduzido, navegamos duas noites e três dias rio abaixo, curtindo uma gostosa piscina e as belas vistas que passavam por nós. As únicas preocupações eram descer pra comer e passar o protetor solar. Paramos em Kom Ombo, um bonito e bem conservado templo bem na margem do rio. Mas, o maior espetáculo ficou por conta da natureza e do prazer de vislumbrar a simplicidade da vida ribeirinha dos egípcios.

Templo em Kom Ombo - Uma das paisagens que vieram até nós
A beleza do rio Nilo

Luxor: o maior museu a céu aberto do mundo

Avenida das Esfinges e Templo de Luxor

Luxor é a cereja do bolo. Na margem oriental do rio, estão o muito bem estruturado Museu de Luxor, o Templo de Luxor e o Complexo de Karnak. Todos são destinos de primeira grandeza. Mas, Karnak merece o destaque. Basta dizer que ainda hoje abriga os maiores templos jamais construídos. Maior, por exemplo, do que a Basílica de São Pedro no Vaticano. Mesmo uma visita “rápida” levará horas. É realmente enorme e cheio de boas surpresas.

Entrada do Templo de Amón em Karnak
Maior obelisco ainda de pé no Egito - Karnak
Olhe pra perna desta estátua e imagine até onde ela vai...
... hoje ela só vai até aí mesmo

Do outro lado do rio, estão os super famosos Vale dos Reis, Vale das Rainhas e Del el-Bahari. Além destes, ainda existem outras dezenas de pontos de interesse, com destaque pros Colossos de Memnón, Medina Habu  e o Ramesseum. Como as atrações podem estar a até 10km umas das outras e nós não gostamos de depender de táxi, fizemos o bom negócio de alugar bicicletas. A receita é começar bem cedo pra encarar a subida até o Vale dos Reis antes que o sol se torne insuportável. Depois, fica fácil e é só escolher entre o vasto cardápio de tumbas multicoloridas, estátuas colossais e belos templos disponíveis.

Del el-Bahari

Essas cidades têm sempre uma ou mais ruas com um mercado voltado aos turistas, vendendo souvenir, roupa, temperos etc. Rodamos por elas com a Jordana e o Ivo, trocando impressões e expectativas pros destinos que ainda virão. Fechamos nossa estadia no delicioso restaurante Sofra. Se tiver oportunidade, vá lá também.

Com Jordana e Ivo, que agora estão na Etiópia

Deixamos Luxor pra uma viagem de 20 horas de ônibus até Dahab, na Península do Sinai. Aqui é um reduto bem mais cosmopolita, mas o restante do Egito guarda valores bem mais conservadores. A partir de nosso olhar ocidental, uma sociedade árabe e islâmica é bastante machista e homofóbica. Sem querer entrar em um complicado juízo de valor, vamos aos fatos: uma mulher viajando sozinha deve permanecer atenta e deve evitar andar sem companhia à noite e procurar se vestir com discrição. Basta lembrar que o simples fato de mostrar os cabelos já atiça a imaginação da maioria por aqui. Homossexualismo, então, é intolerável. Curiosamente, é muito normal ver trocas de afeto entre os homens, que se beijam, andam de mãos dadas e estão sempre abraçados ou de braços entrelaçados. E seus carros, sempre enfeitados com corações, ursinhos rosas e outros animaizinhos “fofos”. Pura magia!

Acredite ou não, esse é o interior de um táxi típico de Asuán

17 comentários em “às margens do nilo

Adicione o seu

  1. Casal,

    Estou adorando o blog! Os relatos estão me empolgando tanto que já estou eu fazendo as contas para ir ao Egito talvez final do ano ou em 2013. Estenderei o convite aos amigos, já que li em alguns sites que não é muito seguro ir sozinha até lá.

    Desejo ótimos momentos para os próximos destinos…

    1. Que ótimo, Pat!! Pra uma mulher viajando de forma independente pode ser meio chato mesmo. É um país de maioria islâmica e o mais inocente dos comportamentos de uma ocidental provoca reações indesejadas… Mas, tomando os cuidados básicos, mantendo-se nos pedaços mais turísticos e evitando andar sozinha principalmente à noite, acredito que o único perigo é de uma amolação incoveniente, mas nada demais. Agora, atenção tb às tensões religiosas e políticas. O Egito está em ebulição!!! Boa sorte! Abraços

  2. Gostamos muito de encontrar vc’s esperamos encontrar de novo na Sud Africa :) ate ja temos saudades :))

  3. olha eu aqui de novo rsrs… amei!!! só uma curiosidade… dá tempo de lavar as roupas??? como estão se virando???

    1. Oi, Shirley! Tem q dar, né! A mochila é pequena e cabem pcas roupas. Portanto, tem q lavar pelo menos uma vez por semana. Alguns albergues têm esse serviço, em outros casos fomos a lavanderias e a gente vai se virando. Às vezes as opções quase acabam, mas damos um jeito. Ficar de roupa suja é q não dá! rs…

  4. Oi Sobrinha !!!! e Sobrinho !!!! admiro a sua beleza, continua a mesma da menininha que conheci. No entanto, penso que essa viagem realmente vai deixar lembranças em voces para o resto da vida isso é fato, porem entendo que voces como executivos jovens podem tirar proveito diante do mundo corporativo, considerando a iniciativa bem como as experiencia inerente a um viagem como essa, tanto na vida profissional como na pessoal, com certeza voces nunca mais serao os mesmos.
    Um especial para voce e seu marido, que Deus os proteja!
    Sally

    1. Oi, tia Sally!
      A experiência que estamos vivendo é mto rica de várias formas e já vale mto só de passar por elas. Outras formas de tirar proveito disso, será um efeito colateral mto bem vindo! :)
      Que bom q vc tá sempre por aqui apoiando.
      Bjos

  5. Let!!
    Que super trip é essa!!?!
    Curta muito essa energia do planeta, todas as suas culturas, história, climas…
    Vc nunca mais será mesma!! Quero te conhecer de novo quando vc voltar p/o Brasil!! ;)
    bjs
    Ju

  6. Tô muito orgulhosa por vocês! Letícia tá fina d+ lendo o livro no cruzeiro… ai ai ai…
    vcs tão muito finos!
    Me divirto.
    Bjos e não esqueçam de dar os vários mergulhos pelos mares do mundo por mim!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: