até logo, china!


Acampamento base do Monte Everest, 09 de outubro de 2011

Ficamos tanto tempo em terras chinesas e vivemos momentos tão especiais que decidimos fazer um post com nossas impressões finais e com o que aprendemos desse lugar extraordinário. Essa noite, estamos acampados na base do Monte Everest, oficialmente na fronteira do Nepal com a China. Mas, o Tibet não é China. É um país ocupado à força. Por isso, essa retrospectiva não incluí o Tibet, que aparecerá “livre” no nosso próximo relato.

Nosso roteiro nessa longa jornada pela China

Foram quase 50 dias na China até chegarmos a Lhasa, no Tibet. Mais tempo do que passaremos em qualquer outro lugar nessa volta ao mundo. A princípio, não era esse o plano. Fomos seduzidos pela diversidade, ambigüidades e pelo contraste com nossas referências ocidentais. Ficamos encantados pela hospitalidade e simpatia do povo e pelo ritmo relaxado em que dá pra viajar pelo País.

Esse caso de amor começou em Hong Kong. Não poderia haver melhor porta de entrada, já que Hong Kong é uma ponte entre oriente e ocidente, um encontro entre as duas culturas. Dali pra frente, foi China de verdade. Ficamos embasbacados com as belezas de Yàngshuó e do Dragon Backbone Rice Terraces. Destinos imperdíveis pra quem vai ao País!

Hong Kong: uma ponte entre dois mundos bem diferentes
Em Yangshuo, beleza natural ganha um novo significado!
No Dragon Backbone Rice Terraces, outro visual incrível

Continuamos rodando pelo sul, partindo pra província de Yúnnán, rumo à Kunming. Além dos parques e templos budistas da cidade, não muito longe fica a surreal Floresta de Pedra.  A região é um famoso destino mochileiro e a cidade histórica de Dali é uma de suas estrelas.

A Floresta de Pedra e o cenário inusitado próximo de Kunming
Interior de templo em Dali.

A essa altura, a gente começava a perceber algumas das características que mais nos marcariam no povo chinês. A primeira delas, o budismo. Há até pouco tempo, religião era tabu num País comunista, oficialmente ateu e intolerante às opiniões divergentes. Hoje, as demonstrações de fé voltaram a ser aceitas e são até bem vistas pelo Governo.

Altar de um dos vários templos budistas que encontramos por toda a China.
Mulher budista em Dali

Também chamou nossa atenção como o chinês, de modo geral, segue a massa. Querem ver exatamente o que as outras pessoas estão vendo e tirar fotos no mesmo ponto fazendo poses idênticas. Um lugar sossegado pode rapidamente ser invadido pela “China”, que surge em enormes bandos comandados por guias com microfones e desaparece pouco depois. Com todo mundo querendo fazer a mesma coisa na mesma hora era de esperar que logo se formassem filas, certo? Errado! Nada de filas. Em qualquer situação, seja pra comprar comida no fast-food ou rezar pra um Buda no altar, vale a lei do mais forte ou mais esperto.

No Temple of Heaven, todos juntos e correndo para ver quem chega antes!

Nossa jornada começou a guinar pro norte quando fomos pra Chengdo. Nos arredores da cidade, estão duas das mais inesquecíveis atrações da China: o Grande Buda de Lèshan – o maior do mundo – e os adoráveis ursos pandas. O destino seguinte foi Xian, terra dos badalados Guerreiros de Terracota. Nesse último trecho, trocamos definitivamente os ônibus-cama por trens – um salto de qualidade.

O maior Buda do mundo em Leshan.
Os encantadores Pandas em Chengdo.
Os Guerreiros de Terracota em Xian.

Os trens são um capítulo à parte nas viagens pela China. As cabines com camas são ideais pra cobrir as longas distâncias. A maior que fizemos, entre Beijing e Lhasa, durou 44 horas! Os chineses cumprem um ritual. A primeira hora é destinada ao bate papo entre os recém conhecidos. Depois, começam a comer sem parar até a hora de todos deitarem. No dia seguinte, todo mundo levanta ao mesmo tempo e começa a comer e socializar de novo. Todos sentados nas camas de baixo, sejam os donos delas ou não, tenha alguém dormindo nelas ou não. O conceito de espaço individual é bem diferente do nosso.

Essa é uma cabine "1a classe" do trem, com 4 camas. Geralmente viajávamos em cabines com 6 camas.

Independente disso, são viagens gostosas. O senão são os banheiros. Um problema não só no trem, mas em praticamente qualquer lugar. Muitos não passam de uma série de cabines sem porta com um buraco no piso que vai de uma ponta a outra. Seja lá o que a pessoa da cabine ao lado estiver fazendo corre pelo buraco que você também está usando. Tudo isso com privacidade zero. De positivo, as cidades têm incontáveis banheiros públicos nas ruas. Não tão positivo assim é que você os identifica de longe pelo cheiro. Há outros dramas escatológicos na China. As pessoas cospem no chão o tempo inteiro, mesmo em ambiente fechados, a flatulência rola solta sem constrangimento e outras situações igualmente pouco agradáveis. Pra encerrar com estilo, as crianças (e alguns adultos) nos brindam com suas “necessidades” no meio da rua. Ah, a falta que uma fraldinha não faz…

Às vezes não é preciso saber o idioma para entender o recado.
 
Os bebês e suas bundinhas

De Xian, seguimos pra Shanghai. A capital econômica do País é uma cidade rica, desenvolvida e bem organizada. É o que as metrópoles brasileiras sonham em ser. E, depois, na região da Montanha Amarela fomos conhecer as vilas de Tunxi, Xidi e Nanping. Além, é claro, de Huang Shan – a própria montanha – com o mar de nuvens aos nossos pés.

Os prédios ultra modernos de Shanghai
A vila de Xidi.
O cenário surreal da Montanha Amarela em Huang Shan.

As cidades costumam ter belos e bem preservados parques onde os chineses se reúnem pra diferentes atividades. Entre as mais comuns, o tradicional tai chi, grupos de dança, os famigerados karaokês ou as bem mais interessantes bandas com vários instrumentos e boa música.

Assistimos uma banda profissional tocar no parque do Temple of Heaven.
Todos os dias os parques ficam lotados de pessoas não tão profissionais dançando...
O Tai chi também é praticado todas as manhãs.

Lugares como Shanghai e bonitos parques urbanos podem reforçar a difundida imagem da China “superpotência”. É preciso ir devagar com essa conclusão e considerar a assombrosa escala que as coisas alcançam no País. É a 2ª maior economia do mundo, mas o PIB per capita é igual ao da Namíbia, por exemplo. Nenhum outro lugar investe tanto em transporte de alta tecnologia, mas muitas estradas estão caindo aos pedaços. É o maior exportador do planeta, mas a maior parte da população é rural e miserável. É bem verdade que o progresso das últimas décadas é notável, mas em grande parte dos critérios é bem menos desenvolvida que o Brasil. Outro equívoco é imaginar que a China seja comunista. Foi no passado, do qual de concreto resta o Partido Comunista no poder, violento, opressor e centralizador. Hoje, prevalece a feroz economia de mercado que gera uma das piores distribuições de renda do mundo.

O interior do País ainda é muito pobre e a vida no campo é dura.
As condições de trabalho podem ser brutais.

E finalmente chegamos à Beijing, a última cidade nesse nosso giro pela China. O coração de um País em que as pessoas andam de pijama na rua, comem bem e barato e esperam que se barganhe em praticamente qualquer compra, podendo fechar um negócio por um quinto do preço inicial.

A Grande Muralha em Beijing.
A comida na China é boa e barata.
Fazendo uma boquinha

Em cada canto que passamos e cada situação que vivemos, fomos desenvolvendo um carinho especial pelos chineses que nos receberam tão bem. São lá um pouco indiscretos, até mesmo intrometidos, mas como não perdoar a tão bem humorada curiosidade que têm em relação aos estrangeiros. Uns poucos falam o mínimo de inglês, mas quase todos se esforçam pra interagir e tentar ser úteis. Riem da gente, riem de si mesmos e nos fizeram rir muitas vezes!

Mais um típico dia de celebridades

Apesar de tanto tempo, ficou um gostinho de quero mais. O tipo de lugar que você sabe que vai voltar porque se sentiu bem, tem mais pra ver e vale à pena repetir a dose. História, cultura, paisagens, pessoas, compras ou comida. Há vários bons motivos pra dar meia volta ao mundo e (re)descobrir a China!

Beijo do Panda!

23 comentários em “até logo, china!

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  1. Olá Fred e Letícia :)

    Que viagem fantástica! Isso que é viajar de forma inteligente, enriquecendo as bagagens culturais.
    No próximo tour visite também, a minha terra natal que se situa ao norte do Japão a qual possui arquitetura em estilo europeu com lindas paisagens, sistema de urbanização organizada e limpa onde as pessoas são mais receptivas.
    Caso for ficar mais tempo aconselho alugar imóvel pelo contrato Chintai, por exemplo com valor de duas diárias do hotel pode-se alugar para um mês.
    Deixo os links de imobiliária e guia de turismo, se interessarem serão utéis.
    http://po.leopalace21.com/
    http://www.japan-guide.com/e/e6860.html

    Desejo-lhes Boa Viagem!!

  2. Oi Leti, quanto tempo… tudo bem com vocês? O blog de vocês ficou show!!!
    Estou indo para a China em outubro e vou ficar em Beijing a maior parte do tempo. Como é a aceitação de cartões lá? Vale a pena ou é melhor levar Yuan? Outra dúvida, vocês foram à Datong?
    bjs

  3. Olá Fred e Letícia!

    Eu e meu marido estamos começando a pensar seriamente em dar a volta ao mundo em um ano. Nesse fim de semana descobri a página de vocês, a qual é sensacional! Isso só aumentou minha vontade de realizar o sonho. Este post sobre a China então…. meu marido pensava que a China fosse perigosa para se viajar sem excursão, mas eu gostaria muito de conhecê-la. Além disso, se não for muito inoportuno, gostaria de saber qual o custo total da viagem de volta ao mundo em um ano, de que empresa vocês compraram o transporte aéreo etc. Se puderem, enviem-me um e-mail. Super obrigada! Carolina

    1. Carolina,
      Que bacana! Essa viagem foi realmente fantástica! A China foi um dos pontos altos! Ficamos dois meses entre china e tibet e simplesmente amamos cada cantinho. Não há perigo nenhum!! Um lugar que desejo muito voltar.
      Sobre o custo, varia em função do seu estilo de viagem. Se vocês topam ficar em albergue dividindo quarto, se vão ficar mais tempo em países caros ou mais tempo na Ásia, onde tudo é muito mais barato! Então, não há como definir um preço para a viagem.
      Quando fizemos o planejamento, olhamos no site do lonely planet a média de custo diário por país indicado por eles. E montamos nosso roteiro para ficar pouco tempo em países caros e mais tempo em países baratos. É uma boa forma de prever custos.
      Boa sorte! Espero que essa viagem saia do papel. Foi um momento único em nossas vidas!

  4. Ai que saudade que eu estava do mochilando!!! *-*
    Hoje o dia amanheceu frio e com chuva aqui no Rio, ótimo para ficar de bobeira em casa! rs
    Coloquei minha leitura em dia, a falta de tempo tinha me feito parar lá no início da Ásia.
    AMEI AMEI AMEI! Absurdamente bem escrito como sempre! Me apaixonei por um lugar que não tinha exatamente vontade de conhecer e que agora vai ser parada obrigatória. Super Obrigada!

    Bjão para os dois e tudo de bom para os próximos meses! :)

  5. Amores, que CHINA…Eu estou parada com tanta beleza e história.
    Admitto que tinhas preconceitos de ditadura, volência, o trato coma muclher…que nunca
    me ativivaram a admiração e vontade de conhecer ..
    Ignorancias à parte,que beleza, que entusiasmo de vcs …
    Que lindinhos vcs estão….
    Saudades.
    Mama

  6. Oi, a sandrinha fez um comentario aqui outro dia.
    O blog de Vcs è muito animal! caraca cada foto e cada relato ! confesso que ficamos com invejinha ( boa) de como vcs são pro !
    E dai a pergunta: como vcs conseguem se dividir entre pesquisas pro próximo destino, curtir o lugar presente ( mais importante) e fazer posts tão caprichados ? ( estamos numa barca parecida com a de vcs – até superpostergamos a estada na china- mas 2 meses atrasados no blog)

  7. Olá queridos!!! Tava com uma saudade enorme de vocês, por isso em pleno trabalho parei para ler este post. que demais…. eu nunca tive muita vontade de ir a China, mas vocês escreveram de um jeito tão bom e carinhoso que começo a rever meus conceitos… rs
    Grande beijo e um abraço bem bem apertado.

  8. Mais um post muito bom. Estou adorando acompanhar esse blog. Vocês estão acrescentando muito ao meu conhecimento, pois nada melhor do que ouvir as impressões de brasileiros que estão aí atentos a todos os aspectos. Como isso tudo e enriquecedor.
    Continue mandando suas impressões. Estou adorando. Ate o Tibet. Beijos

  9. Fiquei apaixonada pela China lendo o post de vocês!!!! Dá pra sentir um carinho ao descrever a experiência!!! Abraços e…. vamos so Tibet!!!!

  10. Não deu pra dar uma passadinha pela China Continental, mas este post me animou a planejar um possível roteiro numa oportunidade futura… abração e sucesso na escalada!

  11. Há que se concordar com o Jéferson: um dos melhores, senão o melhor post até o momento. Humano, sensível e carinhoso, sem deixar, contudo, de ser crítico e, por vezes, severo, como a intolerância assim o exige. Será influência do místico, contemplativo e indecifrável Tibet, post que se avizinha e sonho de consumo na minha juventude?
    Aguardamos ansiosos por notícias do topo do mundo.
    Continuem aproveitando e nos mostrando esse “mundão besta”, multifacetado e incrivelmente contraditório.
    Saudades.

  12. PARABÉNS POR MAIS ESSA EMPREITADA. AGRADEÇO PELAS NOVIDADES E PELAS FOTOS. SEM DÚVIDA APRENDI MAIS UM POUQUINHO. DESEJO SUCESSO NA NOVA FASE.E SE PRECISAR DA LETRA DE ALGUMA MUSIQUINHA,ENTRA EM CONTATO. ABRAÇOS CARINHOSOS.

  13. Tudo lindo demais!A China é realmente encantadora!
    Estamos ansiosos para ver as novidades….Everest…um gde sonho!

    Bj gde

  14. A viagem tá sensacional e vcs escrevem de um jeito muito bacana, sem esmiuçar cada coisinha que fizeram durante os dias :-)

    Trabalhei numa empresa chinesa (rodeado por eles) e isso me deixou com uma desconfiança disgramada desses olhinhos puxados, mas a curiosidade de conhecer o ninho ficou ainda maior depois de ler os posts de vcs, hehehe

    Grande abraço e rumo ao topo do Everest, agora que quero ver ! :) hehehe \o/

    1. Que blz, Enrico! É isso aí, dê uma chance pros olhinhos puxados! ehehehe…
      “Topo” do Everest seria mais complicado… fomos na base, serve?
      Da próxima vez, a gente encara uma expedição pro topo (e paga a taxinha de USD60.0000) hahahah!
      Abração

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